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quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Glória de João Batista

“Mas o anjo disse-lhe: Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João”. (Lucas 1, 13)
Deus escolheu uma Virgem imaculada para que nela fosse gerado o Seu Filho amado, o “Verbo humanado”, como dizia o doutor São Bernardo; escolheu um varão casto e justo para ser seu pai legal, São José; e escolheu João Batista para ser Seu Precursor, aquele que deveria anunciar ao povo judeu a chegada do Salvador. Por isso, João Batista é  considerado o último profeta do Antigo Testamento e o primeiro do Novo.
Sua concepção no seio envelhecido de sua mãe Isabel foi milagroso: “Mas o anjo disse-lhe: Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João”. (Lucas 1, 13)
No seu nascimento o povo perguntava maravilhado: “O que virá a ser este menino? De fato, a mão do Senhor estava com ele. E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel”. (Lc 1,66)
Por isso, João Batista é um dos poucos santos que a Igreja comemora a data do seu nascimento. Somente da Virgem Maria e de Jesus Cristo é celebrado a data natalícia. João foi escolhido por Deus, como diz o profeta Isaías, “já no ventre de sua mãe”. E foi santificado ainda no ventre de sua mãe diante da Virgem Maria.
O profeta Isaías já tinha profetizado que Deus o “preparou desde o nascimento para ser seu Servo – que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória”. (Is 49,4-6)
João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. Estando para terminar sua missão, declarou: “Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem Aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (cf. At 13,24-26). E o povo se curvava diante da pregação de João: “Ouvindo-o todo o povo, e mesmo os publicanos, deram razão a Deus, fazendo-se batizar com o batismo de João”. (Lc 7, 29)
O evangelista São Mateus narra com detalhes o trabalho de João: “Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos céus. Este é aquele de quem falou o profeta Isaías, quando disse: “Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Is 40,3). João usava uma vestimenta de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão. Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. Não digais dentro de vós: Nós temos a Abraão por pai! Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. Tem na mão a pá, limpará sua eira e recolherá o trigo ao celeiro. As palhas, porém, queimá-las-á num fogo inextinguível. (Mt 3,1-17)
Jesus fez elogios eloquentes a João: “Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. ( Mt 11, 11). Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”. (Mt 11, 12)
“Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. João era uma lâmpada que arde e ilumina; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz”. ( Jo 5, 35)
Quando João Batista mandou seus discípulos perguntarem a Jesus: “És tu o que há de vir ou devemos esperar por outro?”, Jesus respondeu-lhes: “Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho. Depois que se retiraram os mensageiros de João, ele começou a falar de João ao povo: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Pois vos digo: entre os nascidos de mulher não há maior que João. Entretanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele”. (Lc 7, 22-28)
Jesus sempre se referia a João: “Pois veio João Batista, que nem comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Ele está possuído do demônio”. (Lucas 7, 33)
Ao ver Jesus, João Batista o apresentou a seu discípulos de maneira certeira: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1,29). Assim, João dava a “identidade e a missão” de Jesus. Ele é aquele cordeiro que será imolado pela redenção da humanidade, cuja figura estava naqueles dois cordeirinhos que os judeus sacrificavam todos os dias no Templo, as seis horas da manhã e as seis horas da tarde (o holocausto perpétuo), para que Deus perdoasse os pecados do mundo. João mostrava assim a missão de Jesus, “arrancar com sua morte o pecado do mundo”, porque “o salário do pecado é a morte” (Rom 6,23). Mostrava-nos assim, que Jesus não veio para outra atividade, senão tirar  o pecado dos homens e instaurar o reino de Deus, da Graça.
Quando Jesus se apresentou para ser batizado por ele, João rejeitou: “Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim! Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa. Então João cedeu. Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. E do céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição. (Mt 3,1ss)
Quando Jesus perguntou a seus Apóstolos, “Quem os homens dizem que Eu sou?”, responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas”. (Lucas 9, 19)
Até Herodes Antipas, que o degolou, achava que João era um profeta: “O rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tornara célebre. Dizia: João Batista ressurgiu dos mortos e por isso o poder de fazer milagres opera nele” (Marcos 6, 14). Referindo-se a Jesus, disse: “É João Batista que ressuscitou. É por isso que ele faz tantos milagres” (Mt 14, 2). “O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que Jesus fazia e ficou perplexo. Referindo-se a Jesus, Herodes dizia: Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo. ( Lc 9,6- 9).
O Profeta Malaquias tinha anunciado: “Vou mandar-vos o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do Senhor” (Ml 3,23). Por isso, os judeus interpretavam que Elias ressuscitaria e apareceria antes do Messias chegar; então, os discípulos perguntaram a Jesus: “Por que dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro? Jesus respondeu-lhes: “Elias, de fato, deve voltar e restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do Homem. Os discípulos compreenderam, então, que ele lhes falava de João Batista” (Mt 17,11-13).
Mas, como todo profeta, João pagou com sangue sua pregação. Conhecemos bem essa história. Por ter tido a coragem profética de dizer a Herodes que era pecado ele ficar com a esposa de seu irmão Felipe, ele pagou com a vida. “Por instigação de sua mãe, a filha e Herodíades respondeu: Dá-me aqui, neste prato, a cabeça de João Batista”. (Mt 14, 8)
Prof. Felipe Aquino

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os dons infusos do Espírito Santo

Os dons infusos produzem os frutos, perfeições que o Espírito Santo forma em nós como primícias da glória eterna
Desde o batismo ,o Espírito habita em nós (cf. 1 Cor 3,16; 6,19) e gera em nós os dons de santificação, também chamados dons infusos: Ciência, Entendimento, Sabedoria, Conselho, Piedade, Fortaleza e Temor de Deus. Com a Crisma, esses dons crescem no cristão. Os Sete dons do Espírito Santo.
“Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Porque o templo de Deus, que sois vós é santo” (1 Cor 3,16). “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual vos foi dado por Deus? (1 Cor 6,19).
O nosso Catecismo diz: “A vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito Santo. Estes são disposições permanentes que tornam o homem dócil para seguir os impulsos do mesmo Espírito” (n. 1830).
Os dons do Espírito Santo são como que “auxiliares das graças”, os seus “lubrificantes”. São predisposições para a santidade que o batismo infunde na nossa alma junto com a graça santificante e as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e morais (justiça, fortaleza, prudência e temperança).
Além dos dons infusos, o Espírito Santo produz nos fiéis os frutos, que são perfeições que o divino Espírito forma em nós como primícias da glória eterna. A Tradição da Igreja enumera doze: “caridade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência e castidade” (Gl 5,22-23 vulg.).
Os sete dons do Espírito Santo em plenitude pertencem a Cristo. Completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que os recebem. Tornam os fiéis dóceis para obedecer prontamente às inspirações divinas. “Que o teu bom espírito me conduza por uma terra aplanada” (Sl 143,10). “Todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Filhos e, portanto, herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,14.17).
Somente pela ação do Espírito Santo em nós é que podemos conquistar a santidade. É ele que, desde o batismo, vem habitar em nós para nos fazer “templos do Deus vivo”; ou, como disse São Pedro, “pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo, a oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus, por Cristo” (1Pe 2,5). São Pedro Julião Eymard disse que “é dogma de fé que, sem o auxílio do Espírito Santo, não podemos ter um pensamento sobrenatural; apenas naturais”.
O Espírito de Jesus habita em nós para fazer-nos imagens de Jesus (Rom 8,29), o Homem perfeito e Santo. Desde o batismo, o Espírito habita em nós com a Trindade Santíssima e nos dá os dons de santificação: Sabedoria, Ciência, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Piedade e Temor de Deus. A Igreja nos ensina que, mediante esses dons, o Espírito nos dirige para a santificação, à medida que a nossa disposição coopera com a graça.
Muitas vezes, pedimos um ou outro dom do Espírito Santo. Devemos ter a coragem de pedir todos eles, para que Deus venha sempre em socorro de nossas fraquezas e nos ajude a crescer na busca da santidade de vida e no engajamento à missão evangelizadora de anunciar a Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – ao mundo, para que o mundo creia e a paz, a concórdia e a misericórdia reinem entre nós.
Peçamos, humildemente, a Virgem Maria Aparecida,  esposa do Espírito Santo, que  interceda por nós junto a Deus, concedendo-nos  a graça de recebermos os divinos dons, apesar de nossa indignidade, de nossa miséria, de nossa fragilidade e fraqueza. O próprio Jesus, Nosso Redentor, recomenda-nos:  “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto”(Mt 7, 7).
Façamos a experiência e possamos experimentar as chuvas de bênçãos que Pentecostes nos proporcionará. Amém!
Prof. Felipe Aquino

terça-feira, 19 de maio de 2015

E aqueles que dizem não a Deus?

Deus quer que todos os homens se salvem; cf. 1 Tm 2, 4. Todavia Ele não força ninguém a amá-Lo e preferi-Lo aos bens criados. Por conseguinte, Deus a ninguém condena; é a criatura que condena a si mesma. Caso morra consciente e voluntariamente avessa a Deus (coisa que só Deus pode saber), terá para sempre a sorte que escolheu para si, pois a morte coloca o ser humano em estado definitivo, no qual não é possível qualquer mudança. – De resto, faz-se necessário reconhecer que nenhuma criatura está apta a julgar Deus; Este, por definição, é a Suma Perfeição e a Santidade Absoluta; quando Ele à limitada razão humana parece injusto, parece tal não porque seja menos justo do que o homem (um Deus injusto não pode existir), mas porque o seu desígnio salvífico ultrapassa o entendimento humano.
A seguinte questão é feita: “Sou católico, mas tenho uma dúvida que muito me persegue e incomoda: é a questão da condenação eterna… Como um Deus tão misericordioso pode deixar que seus filhos fiquem para sempre no inferno? Para mim, o inferno é o lugar dos demônios e não dos filhos de Deus. Não creio que no inferno esteja algum ser humano. Creio na existência do inferno, mas não como lugar dos homens de pecado e condenados”. Vamos responder por partes:
São Paulo afirma que Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade; cf. lTm 2, 4. Esta verdade deve pairar sempre ante os olhos de quem estuda tal temática.
Ocorre, porém, que Deus não força ninguém a se salvar ou a amar a Deus sobre todas as coisas. Ele respeita a livre opção do homem, quando este prefere a criatura ao Criador ou os bens finitos ao Bem Infinito.
Por conseguinte, Deus não condena a criatura, mas é a criatura que condena a si mesma, optando por permanecer longe de Deus. -Esta é outra verdade de importância capital, que dissipa a ideia de um Deus Carrasco ou Juiz frio e insensível.
Está claro que as opções errôneas da criatura humana nem sempre são plenamente responsáveis. Há pessoas angustiadas, obcecadas que não agem com total conhecimento de causa ou com plena liberdade. Deus – e só Deus – conhece o íntimo de cada um(a); compreende a fraqueza de seus filhos. Vê que, muitas vezes, mesmo quando erram, estão procurando o bem, mas não sabem onde o encontrar. Conhecedor do fundo do coração humano, Ele não procede como um homem, mas atende aos anseios mal formulados daqueles que, sem culpa própria, Lhe dizem Não.
Quem morre consciente e voluntariamente afastado de Deus, fica para sempre longe de Deus não num lugar dimensional, mas num estado de alma (o inferno não é um tanque de enxofre fumegante com diabinhos e tridentes). A morte estabiliza a criatura na sua última opção, de tal modo que, após a morte, não há como trocar de atitudes. A consciência desta verdade incute ao homem o valor da vida presente e de cada um de seus instantes; é no tempo que se configura a vida definitiva de cada ser humano.
A morte coloca o homem num estado definitivo e imutável. 0 homem fica sendo para sempre amigo ou inimigo de Deus, conforme as disposições que tenha ao deixar este mundo; somente enquanto peregrina na terra, pode merecer ou desmerecer o Sumo Bem.
Esta verdade se encontra no Evangelho: Jesus admoesta os discípulos a que vigiem, pois a atitude que tiverem assumido nesta vida em relação a Deus, definirá a sua sorte definitiva. É o que incutem as parábolas das dez virgens (Mt 25, 1-13), dos dez talentos (Mt 25, 14-30), do ricaço e de Lázaro (Lc 16, 18-31), o quadro do juízo final em Mt 25, 31-46…
A mesma ideiacpa_falsas_doutrinas ressoa na pregação dos Apóstolos; ver G1 6, 10; 1 Cor 15, 24; 2Cor 5, 10; 6, 2; Hb 3, 13. A tradição cristã a repetiu sempre, e o Concilio do Vaticano 1 (1870), suspenso antes de concluído, estava para promulgá-la em suas definições teológicas, nos seguintes termos:
“Depois da morte, que é o remate da nossa caminhada, todos teremos logo de nos apresentar perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada qual receba a retribuição do que tiver feito de bem ou de mal quando estava no corpo (2Cor 5, 10); depois desta vida mortal, não há mais possibilidade de penitência e justificação” (Mansi-Petit, Conc. t. LIII, 175).
Até a morte, mas somente até a morte, a natureza humana se acha completa (alma e corpo) e dotada das faculdades que concorrem para a sua evolução (sentidos, inteligência e vontade). Ora é lógico que a decisão do homem relativa ao fim supremo seja tomada pelo homem em sua natureza completa. 0 homem não é espírito só, mas espírito destinado a vivificar um corpo e desenvolver-se mediante o corpo.
Verdade é que, depois da ressurreição, o corpo estará de novo unido à alma. Por que então não poderá haver mudança de opções após a ressurreição? – Respondemos dizendo que a reunião de corpo e alma após a morte é algo a que a natureza humana não tem, por si mesma, direito; é dom gratuito de Deus. 0 corpo então não servirá de instrumento mediante o qual a alma mude as suas inclinações; ao contrário, as condições do corpo se adaptarão às disposições, boas ou más, da alma, em vez de as influenciar; os justos terão um corpo glorioso, ao passo que os réprobos terão um corpo tido como “tenebroso”.
A irrevogabilidade de um destino é algo que nós, peregrinos na terra, dificilmente concebemos; tudo o que conhecemos neste mundo, se nos apresenta como transitório; não temos a experiência do definitivo ou da morte.
O homem é, muitas vezes, tentado a criticar Deus, como se Este fosse menos perfeito do que a criatura e tivesse que aprender com ela a administrar a história deste mundo. Popularmente falando, isto equivale a dizer que, “se Deus não procede como eu penso, Deus está errado e eu estou certo”. Ora tal atitude é falsa não somente aos olhos da fé, mas também aos da razão. Com efeito; Deus, por definição, é Santo e Perfeito; está infinitamente acima da capacidade intelectual e moral da criatura. Em consequência, um Deus injusto ou imperfeito simplesmente não é Deus; quem o admite, está negando o conceito e a existência de Deus; é mais lógico não crer em Deus do que crer num Deus falho e criticável. Se a criatura não compreende os desígnios de Deus, isto não se deve a deficiências do Senhor, mas às limitações do intelecto humano.
Vem muito a propósito a parábola de Mt 20, 1-15: um patrão contrata cinco turmas de operários em diversas horas do dia e, no fim da jornada, manda pagar a todos o mesmo salário, embora tenham prestado desiguais cotas de serviço. Um dos mais cansados dos trabalhadores se insurge então e argui o patrão de injustiça, pois iguala entre si os que não trabalharam o mesmo número de horas. O patrão lhe responde com serenidade, observando que não lhe faz injustiça, pois pagou quanto foi estipulado em contrato, ou seja, um dinheiro, a justa remuneração. Se ele dá aos demais trabalhadores algo que não lhes é devido em estrita justiça, mas depende da benevolência gratuita do patrão, ele tira do seu bolso e não lesa ninguém. Fica então a pergunta: “Precisamente porque eu sou bondoso além de toda expectativa, dando de graça, tu te irritas? É a minha magnanimidade surpreendentemente bela e nobre que te faz protestar?”
A mesma resposta do Senhor da parábola pode ser dada pelo Senhor Deus à criatura que o critica, julgando que Deus não é justo e deveria proceder como a criatura procederia. Se Ele “escandaliza”, porque é bom além dos trâmites habituais vigentes entre os homens. Então não há por que 0 criticar, mas, sim, existem motivos para abaixar a cabeça e adorar a Suma Sabedoria do Senhor, que
vê muito mais longe do que a mesquinha intuição do ser humano. É esta a resposta que a fé católica formula para dúvida acima.
D. Estevão Bettencourt
Revista “Pergunte e Responderemos” nov/1999

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Os Cinco Mandamentos da Igreja

Uma coisa que muitos católicos não sabem – e por isso não cumprem – é que existem os“Cinco Mandamentos da Igreja”, além dos Dez Mandamentos conhecidos. Eles não foram revogados pela Igreja com o novo Catecismo de João Paulo II (1992). É preciso entender que mandamento é algo obrigatório para todos os católicos, diferente de recomendações, conselhos, entre outros.
Cristo deu poderes à Sua Igreja a fim de estabelecer normas para a salvação da humanidade. Ele disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve a mim ouve, quem vos rejeita a mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou” (Lc 10,16). E prossegue: “Em verdade, tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra, será também desligado no céu.” (Mt 18,18)
Então, a Igreja legisla com o “poder de Cristo”, e quem não a obedece, não obedece a Cristo, e conseqüentemente a Deus Pai.
De modo que para a salvação do povo de Deus, a Igreja estabeleceu cinco obrigações que todo católico tem de cumprir, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC). Este ensina: “Os mandamentos da Igreja situam-se nesta linha de uma vida moral ligada à vida litúrgica e que dela se alimenta. O caráter obrigatório dessas leis positivas promulgadas pelas autoridades pastorais tem como fim garantir aos fiéis o mínimo indispensável no espírito de oração e no esforço moral, no crescimento do amor de Deus e do próximo.” (§2041)
Note que o Catecismo diz que isso é o “mínimo indispensável” para o crescimento na vida espiritual dos fiéis. Podemos e devemos fazer muito mais, pois isso é apenas o mínimo obrigado pela Igreja. Ela sabe que, como Mãe, tem filhos de todos os tipos e condições, portanto, fixa, sabiamente, apenas o mínimo necessário, deixando que cada um, conforme a sua realidade, faça mais. E devemos fazer mais.
1º – Primeiro mandamento da Igreja: “Participar da missa inteira nos domingos e outras festas de guarda e abster-se de ocupações de trabalho”.
Ordena aos fiéis que santifiquem o dia em que se comemora a ressurreição do Senhor, e as festas litúrgicas em honra dos mistérios do Senhor, da santíssima Virgem Maria e dos santos, em primeiro lugar participando da celebração eucarística, em que se reúne a comunidade cristã, e se abstendo de trabalhos e negócios que possam impedir tal santificação desses dias (Código de Direito Canônico-CDC , cân. 1246-1248) (§2042).
Os Dias Santos – com obrigação de participar da missa, são esses, conforme o Catecismo: “Devem ser guardados [além dos domingos] o dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Epifania (domingo no Brasil), da Ascensão (domingo) e do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi), de Santa Maria, Mãe de Deus (1º de janeiro), de sua Imaculada Conceição (8 de dezembro) e Assunção (domingo), de São José (19 de março), dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo (domingo), e por fim, de Todos os Santos (domingo)” (CDC, cân. 1246,1; n. 2043 após nota 252) (§2177).
2º – Segundo mandamento: “Confessar-se ao menos uma vez por ano”.
Assegura a preparação para a Eucaristia pela recepção do Sacramento da Reconciliação, que continua a obra de conversão e perdão do Batismo (CDC, cân. 989). É claro que é pouco se confessar uma vez ao ano, seria bom que cada um se confessasse ao menos uma vez por mês, pois fica mais fácil de se recordar dos pecados e de ter a graça para vencê-los.
3º – Terceiro mandamento: “Receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da ressurreição” (O período pascal vai da Páscoa até festa da Ascenção) e garante um mínimo na recepção do Corpo e do Sangue do Senhor em ligação com as festas pascais, origem e centro da Liturgia cristã (CDC, cân. 920).
Também é muito pouco comungar ao menos uma vez ao ano. A Igreja recomenda (não obriga) a comunhão diária.
4º – Quarto mandamento: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja” (No Brasil isso deve ser feito na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa). Este jejum consiste em um leve café da manhã, um almoço leve e um lanche também leve à tarde, sem mais nada no meio do dia, nem o cafezinho. Quem desejar, pode fazer um jejum mais rigoroso; o obrigatório é o mínimo. Os que já tem mais de sessenta anos estão dispensados da obrigatoriedade, mas podem fazê-lo se desejarem.
Diz o Catecismo que o jejum “Determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração (CDC, cân. 882)”.
5º – Quinto mandamento: “Ajudar a Igreja em suas necessidades”
Recorda aos fiéis que devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades (CDC, cân. 222). Não é obrigatório que o dízimo seja de 10% do salário, nem o Catecismo nem o Código de Direito Canônico obrigam esta porcentagem, mas é bom e bonito se assim o for. O importante é, como disse São Paulo, dar com alegria, pois “Deus ama aquele que dá com alegria” (cf. 2Cor 9, 7). Esta ajuda às necessidades da Igreja pode ser dada uma parte na paróquia e em outras obras da Igreja.
Nota: Conforme preceitua o Código de Direito Canônico, as Conferências Episcopais de cada país podem estabelecer outros preceitos eclesiásticos para o seu território (CDC, cân. 455) (§2043).
Demos graças a Deus pela Santa Mãe Igreja que nos guia. O Papa Paulo VI disse que “quem não ama a Igreja não ama Jesus Cristo”.

Felipe Aquino

terça-feira, 28 de abril de 2015

A torre de Babel: qual é a sua mensagem?

O episódio da Torre de Babel (Gn 11, 1-9) não tem a finalidade de explicar a origem das línguas.
Essa torre muito alta deve ser entendida como as que havia na Babilônia (Ziggurats) que os arqueólogos têm encontrado. Tinha a forma de pirâmide com vários patamares e eram monumentos religiosos ou templos pagãos.
Os antigos babilônicos concebiam o mundo como uma alta montanha e achavam que os deuses habitavam nos cumes dos montes; então, colocavam no último patamar das torres a morada dos deuses da cidade. Na Babilônia a torre mais famosa era a do deus Marduque, chamada de “casa do fundamento do céu e da terra”.
Era o poder político da Babilônia divinizado. Assim, a torre de Babel mostra um empreendimento pagão religioso, de homens que queriam criar para si um nome famoso, que os mantivesse unidos, formando assim um poderoso centro político e cultural, impregnado do culto de um ídolo. Queriam construir, longe do Deus verdadeiro, um centro político e religioso que tivesse domínio universal. O símbolo desse poderio seria a torre muito alta. Mas o Senhor confundiu a linguagem das pessoas e colocou confusão entre elas (Gn 11,7).
Deus permitiu que a soberba daqueles homens pagãos se voltasse contra eles mesmos e se desentendessem entre si, afastando-se uns dos outros e fracassando no seu projeto. Não é que tenha havido uma súbita multiplicação das muitas línguas, mas em consequência da dispersão haviam surgido lentamente as línguas diferentes.
A mensagem forte do episódio narrado é que pela falta de uma união interior feita pelo Deus verdadeiro, aconteceu o esfacelamento do grupo. O autor sagrado deu o nome de Babilônia à cidade orgulhosa de Gn 11; na história sagrada este nome tornou-se o símbolo do poder deste mundo que se faz adverso e inimigo de Deus.
Mais tarde, no início do Cristianismo, os cristãos vão identificá-la com a cidade de Roma que matava os cristãos. É a Babilônia do Apocalipse.
O episódio da torre de Babel quer mostrar que o mal que foi gerado pelo pecado original, consumado na morte de Abel, punido pelo dilúvio, vai-se alastrando cada vez mais, o que faz constituir um povo à parte em Abraão (Gn 12)  a fim de preparar a salvação da humanidade perdida no pecado.
Podemos dizer que em Babel, devido à soberba dos homens, houve a divisão e o desentendimento, e as línguas se multiplicaram. Os povos antigos viam a grande diversidade de línguas causada pela divisão entre os homens, e consideravam isto uma desgraça e mesmo um castigo por causa do pecado.
No dia de Pentecostes, na consumação da Redenção trazida por Cristo, os grupos de nações diversas foram reunidas,  louvando a Deus numa só língua, no mesmo Reino de Deus.
As línguas de Pentecostes mostram um homem de coração novo, e derruba as barreiras antigas de cultura, raça, idiomas, interesses, etc., reunindo todos novamente na Igreja, a família nova de Deus, como irmãos unidos no mesmo ideal de amar e servir a Deus, longe de uma vida de orgulho e soberba que divide e faz os homens não se entenderem nem mesmo na língua.
Prof. Felipe Aquino

domingo, 19 de abril de 2015

A importância da ação de graças após a Comunhão

A Igreja nos ensina que após receber a Sagrada Hóstia, Presença real de Jesus: corpo, sangue, alma e divindade; Ele está substancialmente presente em nós até que nosso organismo consuma as espécies do trigo; isto pode levar cerca de 15 minutos. Depois disso, Jesus passa a estar em nossa alma pela ação do Espírito Santo e de Sua graça.
O grande São Pedro Julião Eymard, em seu livro FLORES DA EUCARISTIA (Ed. Palavra Viva, Sede Santos!, Distribuidora Loyola, pgs 131-135), nos ensina a importância da Ação de Graças. Transcrevo aqui alguns de seus ensinamentos para a sua meditação:
“O momento mais solene de vossa vida é o da Ação de Graças, em que possuis o Rei da Terra de do Céu, vosso Salvador e Juiz, disposto a vos conceder tudo o que Lhe pedirdes”.
“A Ação de Graças é de imprescindível necessidade, a fim de evitar que a Santa Comunhão degenere num simples hábito piedoso.”
“Nosso Senhor permanece pouco tempo em nossos corações, após a Santa Comunhão, porém os efeitos de Sua Presença se prolongam. As santas espécies são como que um invólucro, o qual se rompe e desaparece para que o remédio produza seus salutares efeitos no organismo. A alma se torna então como um vaso que recebeu um perfume precioso.”
“Consagrai à Ação de Graças meia hora se for possível, ou, pelo menos, um rigoroso quarto de hora (15 minutos). Dareis prova de não ter coração e de não saber apreciar devidamente o que é a Comunhão, se, após haver recebido Nosso Senhor, nada sentísseis e não Lhe soubésseis agradecer.”
“Deixai, se quiserdes, que a Santa Hóstia permaneça um momento sobre a vossa língua a fim de que Jesus, verdade e santidade, a purifique e santifique. Introduza-a depois em vosso peito, no trono do vosso coração, e, adorando em silêncio, começai a Ação de Graças” (pg. 131).
“Adorai Jesus sobre o trono de vosso coração, apoiando-vos sobre o Dele, ardente de amor. Exaltai-Lhe o poder… proclamai-o Senhor vosso, confessai–vos ser feliz servo, disposto a tudo para Lhe dar prazer.”
“Agradecei-Lhe a honra que vos fez, o amor que vos testemunhou, e o muito que vos deu nesta Comunhão! Louvai a Sua bondade e o seu amor para convosco, que sois tão pobre, tão imperfeito, tão infiel! Convidai os anjos, os santos, a Imaculada Mãe de Deus para louvá-Lo e agradecer-Lhe por vós. Uni-vos às ações de graças amantes e perfeitas da Santíssima Virgem.”
“Agradeçamos por meio de Maria, pois quando um filho pequeno recebe alguma coisa cabe à mãe agradecer por ele. A Ação de Graças identificada com a de Maria Santíssima será perfeita e bem aceita pelo Coração de Jesus.”
“Na Ação de Graças de Comunhão, chorai os vossos pecados aos pés de Jesus com Madalena (Jo 12,3), prometei-lhe fidelidade e amor, fazei-Lhe o sacrifício de vossas ações desregradas, de vossa tibieza, de vossa indolência em empreender o que vos custa. Pedi-Lhe a graça de não mais O ofender, professar-Lhe que preferis a morte ao pecado.”
“Pedi tudo o que quiserdes; é o momento da graça, e Jesus está disposto a vos dar o próprio Reino. É um prazer que Lhe proporcionamos, oferecer-Lhe ocasião de distribuir seus benefícios.”
“Pedi-lhe o reinado da santidade em vós, em vossos irmãos, e que a sua caridade abrase todos os corações.”
Na Ação de Graças podemos e devemos orar pela Igreja, pelas necessidades, intenções e saúde do Papa e de nossos bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados, coordenadores de comunidades, missionários, catequistas, vocações sacerdotais e religiosas, etc.
É o momento privilegiado para pedir a Jesus, pelo Seu Sacrifício, o sufrágio das almas do Purgatório (dizendo-Lhe os nomes), de pedir por cada pessoa de nossa família e de todos os que se recomendaram às nossas orações e por todos aqueles por quem somos mais obrigados a rezar. E supliquemos a Jesus todas as graças necessárias para podermos cumprir bem a missão que Ele nos deu nesse mundo, seja familiar, profissional ou apostólica. É também o momento de nossa cura interior, pelo Sangue de Jesus.
Não nos esqueçamos nunca do que Ele disse: “Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira” (Jo 15, 1-6). É melhor não Comungar do que Comungar mal.
Prof. Felipe Aquino

domingo, 12 de abril de 2015

A Misericórdia Divina

Se a nossa pequenez merece que a amemos no sentido de que nos obriga a prestar homenagem à verdade e nos permite imitar as humilhações de Jesus Cristo, o Verbo encarnado, poderá ser-nos ainda mais útil se a considerarmos nas suas relações com a infinita misericórdia de Deus.
As nossas faltas não devem nunca desanimar-nos, e que a dor de as termos cometido deve ser sempre acompanhada de uma invencível confiança na bondade divina. As considerações que vamos fazer agora mostrarão que os nossos pecados e imperfeições, longe de diminuírem essa confiança, são um dos seus elementos mais fecundos.
A este respeito, os textos do nosso Santo são tão claros e abundantes que dispensam todos os comentários. Limitar-nos-emos por isso a citá-los fielmente. Antes, porém, não será inútil buscarmos em outras fontes algumas reflexões que sintetizem e ofereçam uma base teológica a esta consoladora doutrina.
Deixemos em primeiro lugar que um eminente autor contemporâneo, já citado, nos exponha e desenvolva numa página magnífica, inspirada na doutrina de São Tomás, o princípio fundamental deste novo aspecto da arte de aproveitarmos as nossas faltas.
“Deus é amor, diz mons. Gay, citando as palavras de são João (1Jo 4,8). Deus ama, Deus ama-nos desde que existimos é para Ele uma e a mesma coisa, uma e a mesma necessidade. Não será, pois,  esperança um dever para todos nós? Podemos ter receio de exceder-nos na esperança? Que desculpa podemos ter para que ainda haja dentro de nós uma centelha sequer de desconfiança?
“Dir-se-á: o pecado existe. Infelizmente, essa é a verdade! O pecado segue-nos, e, onde quer que se manifeste, cria um problema, traz uma complicação, levanta um obstáculo: problema para nós, complicação em nós, obstáculo diante de nós. Mas por acaso há problemas para Deus? Podemos embaraçar os seus caminhos ou opor-lhe barreiras? Ele se detém se assim lhe apraz, mas unicamente porque lhe apraz, e passa por toda a parte por onde quer passar.”
“O pecado atinge Deus porque o ofende, mas também não o atinge porque nunca o muda. É verdade que modifica os seus atos, mas não modifica a sua essência, isto é, deixa intocada a sua disposição primordial e substancial para conosco: o amor que nos tem. Numa palavra: em face do nosso nada, a sua bondade transforma-se em amor; em face do pecado, o seu amor converte-se em misericórdia.
“Mas para isso é necessária uma condição: que o pecador confie. E haverá alguém com mais títulos para confiar em Deus do que o pecador?
“É verdade que a santidade divina tem tal horror pelo pecado que a sua Justiça se vê obrigada a puni-lo com penas espantosas; mas é precisamente por isso que a misericórdia divina se comove incomparavelmente mais com essa desgraça do que com qualquer outra que pudesse atingir-nos.
“Encarado sob o aspecto da pena que merece, o pecado é, portanto, o mal supremo e a miséria absoluta: a perda de Deus! Mas para onde há de acorrer a maior compaixão, se não é para a maior miséria? Tal é a razão pela qual a misericórdia de Deus se concentra neste ponto, a fim de que o pecador se arrependa, ganhe confiança, obtenha o perdão e se salve. Disto se conclui que a própria veemência da cólera divina é em Deus uma nova e mais viva fonte de bondade e de compaixão, tornando-se como que um novo fundamento para a nossa esperança”.
A miséria atrai a Misericórdia
Comprovado de um modo tão claro que a Misericórdia divina não é senão a sua Bondade, isto é, a própria essência de Deus nas relações com a miséria da sua criatura, entrevê-se que cada uma das nossas quedas pode chegar a ser, se assim o quisermos, uma nova ocasião para que se manifeste esse atributo divino.
“Bem-aventurados os misericordiosos! (Mt 5,7). Pode-se dizer que, ao pronunciar esta bem-aventurança, o Filho de Deus feito Homem nos revelou a sua própria bem-aventurança e a de seu Pai que está nos céus. Porque, se a misericórdia, tal como a pode praticar um simples mortal, é para ele um princípio e uma fonte de felicidade, que se poderá dizer da misericórdia tal como Deus e só Deus sabe exercê-Ia, e que fonte de felicidade não constituirá incessantemente no seio da Divindade?
“Bem-aventurados os misericordiosos: portanto, bem-aventurado sobretudo Aquele que é o único que tem o direito de se chamar bom: Só um é bom, Deus (Mt 19,17), Aquele cuja essência é a caridade, Aquele cuja misericórdia e bondade não têm outros limites que os da própria eternidade: Confessei o Senhor porque é bom, porque a sua misericórdia permanece para sempre (SI 135).
“O rigor não é próprio da natureza de Deus. Quando Deus cede à cólera, assume uma atitude que não lhe é peculiar: Ao irar-se, faz uma obra que lhe é estranha (Is 28, 21). A sua mão esquerda tem a vara da justiça, mas logo se cansa de trabalhar com essa mão; a mão direita do Senhor, pelo contrário, é o instrumento favorito do seu coração, é ela que empreende as obras do seu amor… De um pecador empedernido, sabe fazer num instante um penitente decidido: Tal mudança é obra da mão direita do Altíssimo (SI 76,11)”.
Mais ainda: a misericórdia só se pode exercer sobre a miséria, e que miséria mais espantosa que o pecado?, que objeto mais digno de piedade para uma infinita piedade? Depende de nós que essas faltas, cujo peso nos esmaga e nos torna vítimas da ira divina, sejam para Deus uma ocasião sem par de manifestar um atributo que se nos afigura ser-lhe mais grato que o da justiça: a bondade, o amor. Nada mais temos a fazer do que dirigir-nos ao seu coração e dizer-lhe com Davi: Vós me perdoareis, Senhor, e apagareis os meus pecados para glorificar a mais preferida das vossas perfeições, a misericórdia: “por causa da vossa bondade, Senhor”; e a própria multidão dos meus pecados me faz esperar mais o vosso perdão, porque, quanto mais numerosos forem, mais glorificareis a vossa misericórdia: “Perdoai o meu pecado, por maior que seja” (SI 24, 11).
“Não foi Deus” – diz um autor pouco conhecido – que nos ensinou a não nos deixarmos nunca vencer pelo mal, mas a vencer o mal pelo bem (cf.Rom 12, 21), a nunca devolver o mal com o mal, nem a maldição com a maldição (cf.1Pe 3, 9), a encher de benefícios os nossos inimigos e a acumular assim carvões em brasa sobre as suas cabeças (cf. Rom 12, 20)? Ora, não é o discípulo mais que o mestre, nem o servo mais que o seu senhor (Mt 10,24). Se, pois, vemos os discípulos desse divino Mestre praticar tão perfeitamente essa lição, que não só se mostram cheios de benevolência e mansidão para com os que os perseguem, mas ainda lhes retribuem o mal com o bem, até ao extremo de dar a vida para os salvar, que diremos do Mestre de quem essas almas justas receberam uma doutrina tão sublime? A caridade de todos os discípulos juntos, comparada com a de Jesus Cristo, não atinge as proporções de uma gota de água comparada com o oceano. Por conseguinte, se uma centelha de caridade foi tão poderosa neles, que não fará o imenso e infinito incêndio da suprema caridade de Deus?”
São João Crisóstomo exclama: “Jesus disse-nos: Se amais os que vos amam, que recompensa podeis esperar? Não fazem o mesmo os pagãos? (Mt 5, 47). E nós dize- mos de Deus: se Ele só escutasse e socorresse os justos, que são seus amigos, não faltaria alguma coisa à sua bondade?”
TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. Ed.Quadrante.P. 75-79.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Como entender a Parada do Sol em Josué?

De fato a Igreja não nos obriga a acreditar que o Sol parou, astronomicamente falando. 
O fato narrado em Js 10,7´15 parece ter esta explicação, segundo os estudiosos: Os judeus julgavam que a terra era plana e recoberta por um firmamento ou uma abóboda cristalina, sobre a qual o sol e a lua giravam. Quando fazia mau tempo ou tempestade, diziam que o sol se retirava para a sua tenda, no firmamento, e lá ficava escondido e imóvel durante a tempestade (ver Habacuc 3, 11). 
Por conseguinte, quando o texto sagrado diz que Josué pediu o estacionamento do sol, quer significar que Josué pediu uma tempestade para ajudá´lo a vencer os adversários. O texto diz que Josué também pediu o estacionamento da lua... (estilo poético). A tempestade ocorreu e deve ter sido longa (quase um dia inteiro, diz o v.13). 
Esta longa tempestade (´que o Senhor desencadeou´ ) deve ter sido a ação de Deus para atender a prece de Josué. De fato houve uma ação milagrosa de Deus. Note que há dois relatos do episódio, de duas fontes: uma em prosa (v.7´11), devida ao autor do livro de Josué; e outra em poesia (12´13b), com breve comentário (13c´14) citada de outra fonte e inserida no livro.
Prof. Felipe Aquino

domingo, 4 de janeiro de 2015

Epifania

Trazer presentes às crianças no dia 6 de janeiro corresponde à comemoração da generosidade que estes magos tiveram ao adorar o Menino Jesus e trazer-lhe presentes levando em conta que “o que fizerdes a cada um destes pequenos, a mim o fazeis” (Mt. 25, 40); às crianças fazendo-lhes viver formosa e delicadamente a fantasia do acontecimento e aos adultos como mostra de amor e fé a Cristo recém nascido.
Prof. Felipe Aquino

sábado, 3 de janeiro de 2015

Quando a Igreja celebra a Festa do Nome de Jesus?

“Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o Nome que está acima de todos os nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (Fil 2, 9-11).
 Depois da Oitava de Natal, a Igreja celebra a importante festa do Santíssimo Nome de Jesus, no dia 2 de janeiro. É uma festa muito importante, mas que às vezes passa despercebida.
Sabemos que segundo a Lei de Moisés, todo menino era circuncidado no oitavo dia  e era o pai quem lhe dava o nome. São José teve a honra de ser encarregado por Deus para dar o nome ao divino Menino. O arcanjo Gabriel disse à Virgem Maria: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus” (Lc 1, 30-31).
E depois o mesmo Arcanjo o confirma em sonho a José: “Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1, 20-21).  “Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o Nome de Jesus” (Lc 2, 21).
Assim, o Santíssimo Nome de Jesus foi dado pelo céu; por isso tem poder. Santa Joana D´Arc morria na fogueira repetindo o nome de Jesus. O nome Jesus representa a Pessoa divina do Verbo encarnado.
Note que São Gabriel deixou claro a José a razão deste nome: “porque ele salvará o seu povo de seus pecados”. A palavra Jesus em Hebraico quer dizer “Deus Salva” ou Salvador. Então, pronunciar o nome de Jesus com fé, é toma-lo como divino salvador.
É no Nome de Jesus que os pecados são perdoados. “O Filho do Homem tem poder de perdoar pecados na terra” (Mc 2, 10). Ele pode dizer ao pecador: “Teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5). E ele transmite esse poder aos homens – os Apóstolos – (Jo 20, 21-23) para que o exerçam em seu Nome.
A Igreja põe à nossa disposição a Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus, incentivando-os a rezá-la com frequência (anexo).
A Ressurreição de Jesus glorifica o nome do Deus Salvador, pois a partir de agora é o nome de Jesus que manifesta em plenitude o poder supremo do “nome acima de todo nome”. Os espíritos maus temem Seu nome, e é em nome d’Ele que os discípulos de Jesus operam milagres, pois tudo o que pedem ao Pai em seu Nome o Pai lhes concede. É no Nome de Jesus que os enfermos são curados, é em seu nome que os mortos ressuscitam, os coxos andam, os surdos ouvem, os leprosos ficam curados… Esse nome bendito tem poder!
Depois que o pecado atingiu a humanidade, somente o Nome do Deus Redentor pode salvar o homem. E este Nome é Jesus. É pelo Nome de Jesus que os Apóstolos operaram maravilhas. “Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu Nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados” (Mc 16,17-18). Portanto, o Nome Santo de Jesus tem poder e deve ser invocado com respeito, veneração e fé.
“O nome de Jesus significa que o próprio nome de Deus está presente na Pessoa de seu Filho feito homem para a redenção universal e definitiva dos pecados. E o único nome divino que traz a salvação e a partir de agora pode ser invocado por todos, pois se uniu a todos os homens pela Encarnação, de sorte que “não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). (n.432)
Os fariseus e doutores da lei quiseram impedir os Apóstolos de pregar em Nome de Jesus: “Chamaram-nos e ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus” (At 4, 17-18). Mas eles se negam a deixar de pronunciar este santo Nome, porque sabem que não há salvação em nenhum outro.
O Nome de Jesus está no cerne da oração cristã. Todas as orações litúrgicas são concluídas pela fórmula “por Nosso Senhor Jesus Cristo…”. A “Ave-Maria” culmina no “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. O nome de Jesus está no centro da oração mariana; o Rosário é centrado no Nome de Jesus, por isso tem poder.
Aquele ceguinho de Jericó clamou com fé o nome de Jesus e ficou curado: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” É o que cada um de nós precisa fazer em todas as dificuldades da vida.

sábado, 1 de novembro de 2014

Dia de todos os santos

No dia 1º de novembro a Igreja celebra a memória de todos os santos, para homenagear todos que estão no céu, diante da visão beatífica de Deus, “intercedendo por nós sem cessar”, como diz a Liturgia. Numa única solenidade a Igreja homenageia a multidão dos moradores do céu.
No Apocalipse, São João teve esta visão: “E vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as gentes e tribos e povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro, trajados com vestes brancas e palmas nas mãos” (Ap 7,14)…” A Igreja já canonizou mais de vinte mil santos, mas há certamente muito mais que esse número.
Na Santa Missa desse dia a Igreja propõe a leitura do Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5), pois elas espelham a vida dos santos: os pobres de espírito, os mansos, os que sofrem, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos, os perseguidos por causa da justiça e  todos os que recebem o ultraje da calúnia, da maledicência, da ofensa e da humilhação. Os que colocam toda a sua confiança em Deus e sabem que sozinhos nada podem.
Os santos são a força mais poderosa da Igreja, foram eles que levaram a evangelização até os confins da terra; sofreram os martírios, esvaziaram-se de si mesmos para em tudo fazer a vontade de Deus.
O Papa João Paulo disse certa vez que “a santidade é a força mais poderosa para levar os homens a Cristo”. A História da Igreja confirma essas palavras; mesmo sem usar um rádio, tv ou internet, os grandes santos abalaram o mundo com suas vidas; assim foi, por exemplo, Santo Antão no deserto do Egito; São Francisco na Itália, Santa Teresa de Ávila na Espanha, Santo Estevão na Hungria, Santa Isabel em Portugal, Santa Teresinha e Santa Joana D´Arc na França e Santo Frei Galvão no Brasil. João Paulo II disse que “a Igreja não precisa de reformadores, precisa de santos”.
Todos os batizados são chamados a serem santos, e a Igreja existe para nos levar à santidade. Ela nos oferece os meios adequados para isso: os sacramentos, a Palavra de Deus, a oração, o jejum, a esmola, etc. A Carta aos Hebreus diz que “sem a santidade ninguém pode ver o Senhor”. Por isso, muitas almas precisam passar pelo Purgatório para adquirir a santidade plena para entrar na comunhão com Deus.
A origem da festa de todos os santos vem desde o século IV, onde se celebrava em Antioquia festa por todos os mártires no primeiro domingo depois de Pentecostes. No ano de 835, esta celebração foi transferida pelo papa Gregório IV para 1º de novembro.
Prof. Felipe Aquino